Joaquim levantou-se rindo, apesar do sangue na boca, e disse que ela estava pronta.
O torneio de dezembro
O torneio aconteceu na primeira semana de dezembro. A propriedade do Barão de Araújo estava decorada como se fosse para uma festa: lanternas coloridas, mesas postas, música ao vivo. No centro, um círculo de madeira atraía a atenção de todos. Músicae áudio
Eduarda de Araújo, filha do barão, era observada da cabine principal, vestida de vermelho, com um olhar vivo e penetrante.
Quando Joaquim chegou com Benedita, as gargalhadas irromperam novamente. Aquela mulher, comprada praticamente de graça, ia enfrentar homens treinados. Ninguém a levava a sério.
No entanto, Joaquim pagou a taxa de inscrição com seus últimos centavos.
A primeira luta foi contra Benedita, um açougueiro de Barra Mansa, um homem de 120 kg com pescoço grosso e punhos fortes. A torcida apostava nele.
Benedita entrou descalço, vestindo calças de linho e uma camisa branca amarrada na cintura. Sem luvas, sem proteção. Apenas seu corpo, sua técnica e a fúria de uma vida inteira.
O açougueiro atacou. Ela esquivou-se do golpe, girou o corpo e cravou um gancho em suas costelas. O som do osso quebrando ecoou. O homem caiu de joelhos, sem conseguir respirar.
Vitória em quarenta segundos.
O lutador que ninguém esperava.
O outro oponente era um capoeirista de Recôncavo, rápido, ágil e perigoso. Ele a rodeava, repetindo socos e chutes. Benedita os recebia, observava e buscava o ritmo.
Quando o encontrou, avançou como um projétil. Um golpe no queixo foi suficiente para detê-lo.
A terceira luta foi mais difícil. Seu oponente, um ex-soldado da Guerra Pratak, era técnico, experiente e implacável. A luta durou quatro minutos. Ele quebrou o nariz dela. Ela quebrou três costelas dele e venceu por pontos.
Na final, o sol estava se pondo. Benedita sangrava e mal conseguia ficar de pé, mas ainda estava lá.
Diante dela estava Tomás, um homem enorme, com 2,10 metros de altura e 150 quilos, filho de um traficante de pessoas. Ele havia matado seis homens em batalhas secretas. Vestuáriode homem
Eduarda de Araújo entrou no ringue e perguntou a Benedita se ela era corajosa ou louca. Em seguida, acrescentou que queria contratá-lo caso ele vencesse.
Benedita cuspiu sangue no chão e respondeu:
“Não estou à venda.”
O último ponto
Tomás golpeou com força avassaladora. Cada golpe parecia pôr fim à luta. Benedita esquivou-se, contra-atacou, mas o cansaço diminuía seus movimentos.
No terceiro ataque, Tomás a atingiu com um uppercut que a jogou contra as cordas. Ela caiu no chão.
A multidão explodiu em aplausos.
Na beira do ringue, Joaquim gritou:
Levantem-se! Por Vicente, pela sua liberdade, levantem-se!
Apesar da dor, Benedita ouviu a voz dele. Pensou nas correntes, nas quatro propriedades, nos capatazes, nas noites que passara amarrada. Algo se agitou dentro dela antes mesmo de seu corpo reagir.
Ela se levantou.
Tomás avançou para dar o golpe final. Benedita esperou até o último instante e então reuniu todas as suas forças restantes para desferir um golpe ascendente em seu queixo.
Tomás congelou, desviou o olhar e desabou como uma montanha.
Leia mais na próxima página.