Ele encontrou a ex-esposa sozinha no hospital e ficou paralisado de medo.

PARTE 2:

“Eu não queria que você me visse assim.” Foi a primeira coisa que ela disse, e de alguma forma doeu mais do que qualquer acusação. Seus olhos permaneceram fixos em nossas mãos, não no meu rosto, como se olhar diretamente para mim tornasse suas palavras reais demais.

“Emily”, eu disse, “há quanto tempo você está aqui?” Ela tentou puxar a mão, mas mal tinha forças. O cateter do soro roçou seu pulso. A pulseira do hospital roçou levemente meu polegar. “Desde esta manhã”, ela sussurrou.

“Que manhã?” Ela não respondeu. Foi então que notei que a prancheta sob a tampa havia se aberto um pouco mais. A primeira página era uma ficha de internação hospitalar. Lá estava o nome dela. Lá estava a data. E a hora também: 6h18. Na seção de contato de emergência, o campo não estava em branco. Meu nome ainda estava lá.

Michael Harris.

Meu número de telefone.

O endereço do meu antigo apartamento estava riscado com caneta azul.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, uma mulher de uniforme azul-marinho saiu do posto de enfermagem com um envelope lacrado e um pequeno saco plástico contendo os pertences de Emily. "Emily?", chamou ela gentilmente. "O médico quer repassar os próximos passos, mas precisamos que alguém a acompanhe na conversa sobre a alta." O rosto de Emily escureceu. Ela não estava chorando. Pior. Ela fechou os olhos como se tivesse se agarrado à última parede e a enfermeira tivesse acabado de roçar nela com o dedo.

"Michael", ela sussurrou, "por favor, não complique as coisas." Olhei para o envelope, depois para a mulher que eu havia prometido proteger, e pela primeira vez desde o nosso divórcio, entendi que os papéis que havíamos assinado haviam encerrado um casamento, e não outra coisa. A enfermeira olhou para mim da perspectiva de Emily e perguntou baixinho: "O senhor é o contato de emergência?" Abri a boca para responder…
Dois meses após o meu divórcio, vi minha ex-esposa sentada sozinha no corredor de um hospital, e no instante em que soube que era ela, algo dentro de mim se quebrou.
O corredor cheirava a antisséptico, café velho e o leve cheiro de plástico dos cobertores hospitalares.
O ar frio jorrava das saídas de ar do teto em correntes constantes, embora metade das pessoas que esperavam estivesse com os suéteres enrolados ou os braços cruzados.

Em algum lugar atrás da mesa das enfermeiras, um monitor emitia um bipe com uma calma que parecia quase cruel.

Eu não tinha ido lá por ela.

Eu tinha ido ver meu melhor amigo depois da cirurgia dele.

David tinha me mandado uma mensagem às 13h17 da quinta-feira, 13 de junho.

Ele ainda está vivo. Traga café se vier.

Esse era o David.

Humor primeiro, sofrimento depois.