"Sobre o quê?"
Victor olhou pela janela da cozinha, onde mamãe sempre o observava quando achava que ele não estava prestando atenção.
"Sobre quem eu sou."
Todas as tardes, minha mãe preparava três refeições.
Duas ficavam na nossa mesa de cozinha gasta.
Ela colocava a terceira no recipiente de plástico que havia lavado e guardado para Victor.
Eu odiava isso.
Odiava ver a fita adesiva cobrindo os buracos nos meus tênis enquanto Victor ficava com o maior pedaço de frango. Nós também estávamos passando por momentos difíceis.
Eu tinha onze anos quando finalmente disse o que se passava dentro de mim.
"Ele come melhor do que eu, mãe."
Mamãe continuou mexendo no fogo sem levantar os olhos.
"Fiona, não comece. Por favor."
"Mãe, tivemos dois apagões neste inverno", eu disse. "Mas Victor come todos os dias como se fosse da família."
A colher escorregou de seus dedos e caiu com um estrondo na pia.
O resto está na próxima página.
"Não diga o nome dele assim, Fiona. Ele precisa de ajuda." Cruzei os braços. Eu estava com frio, fome e cruel, como às vezes acontece com crianças feridas.
"Por quê? Ele é só um homem que mora atrás da nossa casa."
Mamãe se virou para mim, o rosto repentinamente pálido.
"Não", disse ela. "Ele não é qualquer um."
"Então quem é ele?"
Por um instante, pensei que ela finalmente fosse responder.
Em vez disso, ela apertou a tigela quente em minhas mãos.
"Traga a comida dele, querida."
Eu a encarei.
"Se você parasse de alimentar estranhos, talvez não estivéssemos vivendo assim."
Mamãe bateu com a palma da mão no balcão com tanta força que eu caí.
"Nunca mais diga isso. Está me ouvindo? Você não tem ideia do que esse homem sacrificou."
"Por quem você se sacrificou? Por você mesma?"
Seu corpo tremia.
Então ela se virou.
"Traga a comida dele, Fiona. A conversa acabou."
E foi o que eu fiz.
Victor sentou-se perto da cerca, esfregando as mãos para aquecê-las.
"Sua mãe fez sopa hoje?", perguntou ele.
"Sim. De galinha."
Um sorriso doce surgiu em seu rosto.
"É a melhor."
"Você nem a conhece."
O sorriso desapareceu completamente.
"Eu sei qual é a sopa dele."
Por algum motivo, isso só me fez odiá-lo ainda mais.